Judaísmo
  Por Que Se Converter?  

Halachá Ortodoxa e Polidoxa

 

Por Rabino Reeve Robert Brenner

Um judeu ortodoxo praticante vive “pela” Halachá. Um judeu conservador/massortí comprometido vive “com” a Halachá. Um judeu reformista praticante considera a Halachá um “guia”, não um “governo”, para citar a feliz frase do rabino Solomon B. Freehof em um de seus vários volumes de Responsa Reformista. Para o presente, vamos identificar o judeu ou judia – ortodoxo, conservador ou reformista – pela sinagoga à qual ele ou ela está filiado, e não por aquilo que ele ou ela se declara ser.


Devemos nos lembrar, porém, que pelo outro critério válido, um judeu(judia) ortodoxo(a) pode ser inteiramente não-praticante e não-filiado e ainda, apesar disso, por auto-identificação ele(a) afirma que a sua preferência é pela Halachá ortodoxa; que o judaísmo ortodoxo é o judaísmo correto; que se ele(a) fosse se filiar ou apoiar alguma sinagoga, seria uma sinagoga ortodoxa; que para as suas necessidades durante o ciclo da vida, é por um rabino ortodoxo que ele(a) irá procurar; e assim por diante. Esse judeu também é, por uma determinada lógica, definido como judeu ortodoxo. E o mesmo serve para judeus reformistas e conservadores não-praticantes e não-filiados.


Essas várias definições, embora imprecisas em certos contextos, irão todavia servir aos nossos propósitos. Como as diferenciações são confusas, a distinção entre os movimentos é menos importante quando esbarramos nas fronteiras de uma questão muito mais controversa: Quem é judeu? As questões às quais estamos dirigindo aqui são se a Halachá ortodoxa, conservadora e reformista ainda são a mesma Halachá, e se a formulação “conversão de acordo com a Halachá” faz algum sentido no conflito “Quem é judeu?”. Para ambas as questões a resposta deve ser negativa.


Primeiro devemos nos lembrar que hoje em dia, assim como na maioria das épocas anteriores, não existe um judaísmo como um único sistema monolítico de pensamentos religiosos e de comportamento; mais sim judaísmos. Muitos judeus sustentam que é essa mesma pluralidade e diversidade de movimentos e expressões judaicos que enriquecem o nosso modo ou modos de vida. Nós somos um só povo, com diversas tonalidades e colorações religiosas. Eis a tão amplamente empregada metáfora do arco-íris do judaísmo e, ainda assim, tão apropriada. Todas as variedades do judaísmo contemporário, do Hassidismo ao Reconstrucionismo – cada uma preciosa, autêntica, genuína e legítima – refletem o nosso espírito religioso. Nós temos sorte de que muitos movimentos judaicos competem pela nossa lealdade e contribuem para a nossa cultura e modos de vida. E apesar de sermos um só povo com diferentes colorações étnicas, para o nosso bem maior também somos sui generis – o que significa que um dicionário padrão não pode definir para nós o que somos. Somente nós podemos fazer essa determinação, mesmo que discordemos de outros entre nós a respeito desta determinação e dependendo de qual movimento judaico moderno esses outros pertençam.


Nós, o povo judeu de hoje, somos obrigados a decidir quem é judeu e o que os judeus são. Aqueles dentre nós que são judeus israelenses entendem que em Israel, por razões políticas, a nossa vida religiosa se expressa como uma polaridade - ou é tudo ou perto do quase-nada. Mais precisamente, judaísmo ortodoxo de um lado, com aqueles que inadequadamente se autodenominam como “os religiosos”; e uma negação secular da ortodoxia pelos “não-religiosos”. Ou para ser ainda mais preciso, aqui em Israel uma pequena parte da extrema-direita do arco-íris judaico (da super-ultra-ortodoxia para a ultra-ortodoxia, e desta para a ortodoxia) esmaga o grande número de judeus polidoxos (1) comprometidos (com o qual este escritor se identifica). Em contrapartida, na diáspora — na Europa, e principalmente nos Estados Unidos — um arco-íris mais amplo da expressão judaica e vida religiosa acrescenta, enriquece e permite escolhas alternativas para os indivíduos.


Lamentavelmente, nós judeus israelenses devemos confessar que nossas escolhas judaicas são estreitas e limitadas ao extremo. Nós merecemos uma seleção melhor, vinda dos segmentos multicores do arco-íris, do que nós temos atualmente. O instinto e a inteligência sugerem que aqui as escolhas judaicas deveriam ser maiores, e não menores. A diversidade oferece o potencial para maior unidade pela razão que menos judeus são forçados para a marginalidade da vida judaica por quererem uma vida judaica espiritual, sem falar na oportunidade de se praticar a tolerância e a harmonia dentro da diversidade. A questão é: Será que o judaísmo continuar aqui tão estreito, com um alcanço restrito de A a C, ou será que a sua abrangência deve ser ampliada — seguindo a sua própria lógica histórica e sociológica — de A a Z, com todas as nuances e variações criativas que o judaísmo é capaz de acomodar e dar expressão?


Judaísmo não é sinônimo de Halachá, mas o judaísmo não existe sem ela. Há judaísmos no plural exatamente devido aos vários caminhos da Halachá. E por outro lado, graças às várias vias da Halachá é que existem judaísmos no plural. Observe as casas de Shamai e Hillel, duas diferentes e conflitantes escolas de filosofia de Halachá do passado. Portanto nós não devemos ficar surpresos, pois estas diferenças sempre existiram.


Notas da tradutora:

(1) O termo “polidoxo” é utilizado pelo autor para definir os judeus que seguem diversas outras linhas no judaísmo que não a ortodoxa.

 

 

Créditos:

Texto traduzido e publicado com a permissão do Rabino Reeve Robert Brenner
Atualmente o Rabino Reeve Robert Brenner é rabino da congregação reformista Bet Chesed em Bethesda, estado de Maryland, EUA, e morava em Israel quando o artigo foi escrito.
Tradução: Adriana Lacerda
Edição: Uri Lam

 

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