PORQUE O POVO JUDEU DEVE RECEBER BEM OS CONVERTIDOS
Dr. Lawrence J. Epstein
Publicado com permissão de “Judaism”, vol.
43, n°. 3 (Verão de 1994). Copyright 1994, American
Jewish Congress (Congresso Judaico Americano)
O tema da conversão ao judaísmo
tem se tornado proeminente nos últimos anos principalmente
porque a conversão tem sido oferecida como um antídoto
explícito ao casamento inter-religioso (ou misto). Qualquer
que seja a eficácia que a conversão possa vir
a ter em reduzir ou não o número de casamentos
mistos, relacionar diretamente um tema ao outro distorce o papel
crucial da conversão na teologia judaica, sua centralidade
em períodos importantes da história judaica, e
sua promessa de ser um componente de renovação
judaica.
A importância da conversão para o judaísmo
pode ser considerada uma surpresa para muitos judeus - a relutância
destes em aceitar outros para a sua fé está tão
embutida na sua concepção de judaísmo que
se tornou parte da própria fé.
Parte do problema é de definição. “Receber
bem” é usado aqui no sentido de proclamar abertamente
o desejo do Povo Judeu de aceitar convertidos sinceros, aceitando-os
como judeus genuínos e autênticos a partir do instante
em que se convertem, e integrando-os plenamente na comunidade
após a conversão. “Receber bem” exclui exercer
qualquer pressão física ou emocional, enganação,
suborno ou conduta invasiva para conquistar convertidos. Exclui
depreciar a fé de outros, prometer recompensa eterna
por se converter ou condenação eterna por não
se converter. Em resumo, “receber bem” exclui especificamente
as táticas utilizadas por alguns missionários
não-judeus (1). “Receber bem” também exclui um
entendimento do judaísmo que se recusa a oferecer o judaísmo
aos não-judeus interessados, e isso cria tantos obstáculos
à conversão que tais obstáculos se equivalem
a uma recusa em aceitar convertidos ou a não aceitá-los
como judeus plenos.
A questão do por quê uma empreitada judaica tão
fundamental como receber bem os convertidos tornou-se periférica
e em seguida antagônica ao que estava definido como central
no judaísmo requer uma recapitulação do
papel da conversão no pensamento e na história
judaica. Essa recapitulação fornece o pano de
fundo para uma explicação da relutância
judaica em aceitar convertidos, uma relutância que teve
e continua a ter um efeito profundamente negativo no destino
do judaísmo e do Povo Judeu.
É reconhecidamente difícil falar de judaísmo
como uma visão religiosa específica de mundo.
Especialmente antes do judaísmo rabínico e após
o Iluminismo, o judaísmo sempre conteve múltiplas
posições intelectuais, às vezes contraditórias,
que até quando entrelaçadas ainda mantiveram parte
de suas distinções. Mais do que isso, as idéias
no judaísmo avançam de texto em texto, e para
que essas idéias sejam reconstruídas com o propósito
de criar uma tese unificada, são extraídas idéias
de diferentes textos produzidos em diferentes épocas.
Esse processo pode facilmente resultar em uma violência
às idéias e aos textos.
Apesar dessas e de outras dificuldades na interpretação
do pensamento judaico, ainda é possível discernir
amplamente as visões judaicas centrais no que diz respeito
à conversão ao judaísmo.
Em primeiro lugar, é importante definir o local da atividade
de conversão na geografia lógica do pensamento
judaico.
As idéias sobre as quais o judaísmo está
fundamentado são a convicção em um Deus
único, a idéia de que Deus fez uma incursão
na história humana para fazer uma Revelação
- a Torá - e que as instruções éticas
e rituais dessa Revelação - as mitzvot - são
os mandamentos divinos que definem uma boa vida. A estrutura
teológica construída sobre essa fundação
repousa sobre essas convicções. Por exemplo, a
noção revolucionária de monoteísmo
conduziu à visão de que Deus não era apenas
um Deus dos israelitas, mas de todo o cosmo, e portanto, de
todas as pessoas. Afinal de contas, a Torá começa
com a Criação, e não com a Revelação.
O primeiro ser humano criado não era judeu. Um Deus assim
estava preocupado com a moralidade de todos os seres humanos.
Quaisquer planos divinos para a humanidade repousam na noção
de que os seres humanos são parte de uma família
unificada, e a mensagem espiritual que Deus quis dar não
se limita apenas a algumas pessoas; é disponível
e compreensível a todos.
Os judeus foram eleitos por Deus, que revelou ao Povo Judeu
uma instrução moral universal destinada a toda
a humanidade, não apenas aos judeus. Os judeus deveriam
ser os mensageiros, levando essas instruções a
todos. Em primeiro lugar, parece estranho que uma revelação
universal deva ser entregue a um povo pequeno e desprovido de
poder no meio de um deserto após uma fuga da escravidão.
Obviamente, é essa mesma estranheza que ajuda a identificar
as razões para essa escolha de Deus.
A liberdade humana requer a capacidade de optar pela descrença.
Se Deus tivesse escolhido entregar uma revelação
óbvia e disponível a todas as pessoas, a capacidade
de escolha humana teria sido restringida; os seres humanos seriam
obrigados a aceitar os preceitos morais de Deus. Caso a mensagem
tivesse sido entregue a um povo poderoso, a liberdade para aceitá-la
ou rejeitá-la também teria sido restringida porque
teria sido difícil separar a mensagem do poder dos mensageiros.
Porém, quando a Revelação foi entregue
a um grupo de ex-escravos desprovidos de uma terra própria
para que eles a transmitissem, essa mensagem teve que ser considerada
inteiramente por si própria e os seres humanos ficaram
livres para aceitá-la ou rejeitá-la pelos méritos
da própria mensagem. Um deserto é o local perfeito
para uma revelação divina universal porque o deserto
não pertence a nenhuma nação (como esclarece
a Mekhilta sobre Êxodo 19:2) (2), e assim ninguém
pode reivindicar exclusividade sobre a Revelação.
A noção de entregar a mensagem aos recém
libertados construiu um poderoso elo psicológico e social
entre o que estava contido na mensagem de Deus e o significado
da liberdade — tanto nas noções de livre escolha
quanto de liberdade política e econômica.
Foi no Monte Sinai que Deus fez um Pacto com o Povo Judeu. Os
judeus aceitaram a Revelação de Deus, com a sua
encomenda divina de apresentar essa Revelação
para o mundo. Deus, em troca, faria dos judeus “um reino de
sacerdotes e uma nação santa”. A idéia
de um “reino de sacerdotes” foi interpretada de diversas maneiras.
Obadia ben Jacob Sforno argumentou que o sentido dessa passagem
é que os judeus tinham uma vocação religiosa
para levar a Revelação para toda a humanidade.
Tal interpretação foi adotada pelos pensadores
judeus reformistas dos séculos 19 e 20, de Abraham Geiger
em diante. Geiger, por exemplo, no seu livro Judische Zeitschrift
und de Wissenshaft de pele Leben 2, entendia que a passagem
mostrava os judeus como sacerdotes universais. Contudo, a maioria
dos rabinos talmúdicos não concordava que essa
frase tivesse implicações universais.
A frase, então, ecoa com posições particularistas
e universalistas, como ocorre com o judaísmo como um
todo. O Pacto dado por Deus é uma mistura de ambas. Os
elementos universalistas provêm o conteúdo central
da mensagem que o Povo Judeu deveria levar para a humanidade.
O perigo de se concentrar apenas na posição universalista
está em ignorar as contribuições específicas
que a posição particularista exerce no cumprimento
da missão universal, como separar as convicções,
a moralidade e o modo de vida judaicos de um conjunto mais generalizado
de crenças, moralidade e modos de vida.
Os elementos particularistas também têm um papel
vital. Eles existem para impedir que os judeus sacrifiquem a
sua religião em nome de qualquer outra religião
ou ideologia religiosa majoritária e servem como uma
cerca ao redor dos ensinamentos sagrados que devem ser transmitidos.
As particularidades obrigaram os judeus a ser um povo em separado
para não permitir que a sua mensagem divina fosse subjugada
pelas culturas mais fortes que os cercavam. O perigo de se concentrar
somente nas posições particularistas está
em interpretar a eleição do Povo Judeu como a
insinuação de algum senso de superioridade em
vez daquilo que essa eleição realmente implicava:
um povo eleito para cumprir uma missão voltada para todos.
Além disso, as particularidades foram saudáveis
ao impedir que o Povo Judeu desenvolvesse um senso de superioridade
religiosa por ter sido o povo que recebeu a mensagem divina.
Essa separação também limitou a maneira
de se entregar a mensagem. Um povo à parte não
poderia impor a sua religião aos demais. Um povo à
parte não poderia se tornar um povo religiosamente imperialista.
A implicação ética aqui é clara:
embora a missão judaica fosse levar a mensagem universal
de Deus para toda a humanidade, os judeus só podiam oferecer
a mensagem, mas não impor sua aceitação.
Os judeus deviam levar “uma luz para as nações”.
Eles podiam oferecer o judaísmo e receber bem aqueles
que aceitassem a mensagem, pessoas que escolhessem ser escolhidas,
pessoas que se tornavam judias. Essas pessoas, que vinham livremente
para o judaísmo, sem temerem pela sua salvação
(3), eram acolhidas.
A separação tem outra implicação
importante, destacada explicitamente na literatura judaica:
a salvação é universal; depende de uma
boa conduta moral e não de aceitar o judaísmo.
Os justos de todas as crença têm a mesma chance
de serem salvos. O judaísmo jamais foi triunfalista;
sempre pediu que se servisse a Deus e não que os não-judeus
ou religões não-judaicas desaparecessem. A visão
do judaísmo não é que todos devem se tornar
judeus. A conversão deve estar disponível, mas
não deve ser imposta. Fica claro que essa visão,
embora prejudique o potencial para o ativismo proselitista,
foi valioso em definir os limites da missão judaica.
Tal missão consistia em que, num sentido particularista,
o próprio Povo Judeu obedecesse o Pacto escrupulosamente
e ao mesmo tempo como um modelo moral; e num sentido universalista,
levasse a Revelação para toda a humanidade.
Os judeus deveriam ser testemunhas ativas em favor de suas convicções.
A base para essa atividade deriva de uma série de fontes.
A Revelação Divina de Deus foi em si um ato ativo
de oferecer o judaísmo, de Deus compartilhando uma crença.
Os judeus também viram os impulsos missionários
nas ações dos seus fundadores. A viagem de Abrahão
de Harán para Canaã com as “almas” de quem ele
adquirira foi interpretado pelos rabinos com o sentido de que
Abrahão havia feito convertidos. Em Sifre Deuteronômio
313 (4), (sobre Deuteronômio 32:10), Abrahão é
descrito como um missionário tão bem-sucedido
que D’us se tornou conhecido como o Rei da Terra e como o Rei
dos Céus. Em Gênesis Rabá 39:21 (5) Abrahão
também é considerado um missionário. Em
Avot de-Rabi Natan, 23a, os judeus são urgidos a levar
as pessoas “sob as asas da Shechiná (Presença
Divina)” exatamente como fez Abrahão. A palavra “convertido”
é usada livremente quando se refere aos esforços
de Abrahão, que convidava os não-israelitas a
se unir aos israelitas; e levou um bom tempo para emergir a
noção formal de conversão. Podemos encontrar
muitos outros exemplos de esforços missionários
feitos pelos fundadores do judaísmo na literatura agádica
(6), como em Midrash Hagadol, 397. Por exemplo, Rabi Hoshaya
acreditava que Isaac buscava convertidos. Considera-se que Jacob
tenha feito o mesmo (veja em Gênesis Rabá 84:4).
Rabi Shmuel ben Nachman acreditava que José não
distribuía comida aos egípcios a não ser
que eles fossem circuncidados (veja em Gênesis Rabá
90:6 e 91:5). Moisés expôs a Torá em setenta
idiomas, de acordo com um midrash, porque a Torá deveria
ser ouvida e abraçada por todos os seres humanos. Diversas
fontes (talmúdicas), tais como Êxodo Rabá
1:29, destacam que antes de matar o mestre de obras egípcio,
Moisés previu que não haveria um único
convertido entre os descendentes desse egípcio; foi essa
percepção que justificou a morte.
A atitude positiva nas fontes rabínicas quanto a buscar
convertidos forneceu outra justificativa para oferecer o judaísmo.
A atitude rabínica favorável em relação
a aceitar convertidos estava baseada nas atitudes desenvolvidas
na Torá e pelos profetas. A Torá inclui inúmeras
exigências ao Povo Judeu para receber bem os estrangeiros.
A visão profética da lei universal de Deus e da
instrução vinda de Tsión foi declarada
mais eloqüentemente em Isaías 2 (por exemplo em
Isaías 42:6-7). (7)
A passagem talmúdica mais conhecida (Pessachim 87b) que
elogia especificamente o trabalho de buscar convertidos é
do proeminente Rabi Iochanan, com o qual concordou Rabi Eleazar
ben Pedat, onde se afirma que Deus exilou os judeus da sua terra
natal por uma única razão: aumentar o número
de convertidos. É uma noção particularmente
notável que um evento tão traumático como
o exílio nacional possa ser visto como detentor de um
uso divino. Esse uso deve ter sido considerado tão valioso
que justificou o exílio da Terra Prometida.
O imperativo para a missão também pode ser visto
nos esforços históricos (não-bíblicos)
para aceitar os convertidos. Esses esforços incluíram:
(1) criar literatura como os Oráculos Sibilinos, Josefus
Contra Apionem, Apologia de hyper Ioudaion de Philo, a Carta
de Aristéias, Joseph e Aseneth e muito mais, que às
vezes eram utilizados para propósitos missionários;
(2) abrir as sinagogas para convidados e visitantes interessados.
Há uma referência em Philo (De Septinario, 6) para
“milhares de casas de instrução em todas as cidades”,
uma provável referência às muitas sinagogas
que serviam como centro de aprendizado para não-judeus;
(3) abordar pessoalmente os potenciais candidatos à conversão,
tais como o viajante Eleazar, citado em Josefus, Antiguidades
20. 43, que era ativo em Adiabene, um pequeno reino pequeno
no Rio Tigre no qual o Príncipe Regente, Izates, a Rainha
Mãe, e talvez muitos outros, foram convertidos; (4) assimilar
os não-judeus que vivem entre os judeus, incluindo, de
acordo com Philo, muitas crianças abandonadas por suas
famílias não-judias; e (5) pelo casamento de um
judeu com um não-judeu. Esses esforços eram deliberadamente
não invasivos. Eles jamais incluíram a depreciação
das crenças alheias ou a criação de uma
grande ocupação exclusivamente com fins missionários.
A missão judaica também foi considerada justificada
pela Lei judaica. A própria existência de leis
relativas à conversão foi vista como uma forma
de oferecer tal possibilidade. Por que então codificar
leis se o judaísmo não quisesse convertidos? A
existência dessas leis judaicas indica que é a
conversão ao judaísmo é permitida, que
os convertidos são bem-vindos e que há ritos específicos
que devem ser cumpridos para que ocorra a conversão.
Não está claro quando essas regras legais foram
precisamente desenvolvidas. Pode ter acontecido no período
do Segundo Templo ou após a sua destruição.
Certamente após a destruição do Segundo
Templo houve uma necessidade crescente por regras religiosas
claras que mantivessem uma identidade judaica protegida dos
efeitos unificadores de uma nacionalidade comum (com outros
povos), de modo que elas foram estabelecidas no máximo
por volta dos anos 400 – 500 da Era Comum.
Finalmente, os judeus viam a sua missão como algo dinâmico
que culminaria com a redenção da História,
como parte da lógica e do amor divinos que levariam a
História a alcançar a sua meta. A lógica
da visão mundial judaica exigia a missão. D’us
é universal, a humanidade deve ser manter unida, a Torá
revelada por D’us é uma dádiva divina para toda
a humanidade, o Povo Judeu foi escolhido para receber a revelação
e carregar junto com o Pacto os seus ensinamentos, entre os
quais estava tornar a mensagem universal de D’us disponível
a todos, de modo que, com a sua aceitação, a humanidade
pudesse ser redimida.
A missão universalista foi desafiada pelos particularistas,
que defendiam um pacto diferenciado para os judeus e uma aliança
em separado para o resto de humanidade. De acordo com essa visão,
os não-judeus eram obrigados a seguir o código
moral entregue a Noé, e a missão judaica seria
ensinar a eles as “leis de Noé”. As leis de Noé
ordenavam que todas as pessoas se afastassem da idolatria, do
incesto, do adultério, da matança, de profanar
o nome de D’us, da injustiça (pelo ato positivo de estabelecer
cortes judiciais) e do roubo, bem como de atos cruéis
tais como remover um membro de um animal vivo.
Todavia, uma visão assim não preenche as obrigações
do Pacto que são exigidas do Povo Judeu. O fato de que,
em princípio, todo não-judeu poderia ser tornar
judeu significa que obedecer às leis de Noé simplesmente
não é a meta espiritual mais elevada à
disposição dos não-judeus. De qualquer
modo, mesmo que os judeus acreditassem que a sua missão
se limitava a ensinar as leis de Noé, essa missão
raramente foi empreendida.
Por todas essas razões, a missão judaica de buscar
convertidos foi traduzida em ação concreta durante
importantes períodos da história judaica.
Conforme destacado por Salo Baron (veja em “População”,
Enciclopédia Judaica 13, 1971, col. 869), os judeus cresceram
de 150.000 entre 586 A.E.C (Antes da Era Comum) para mais de
8 milhões no século 1 E.C.. Esse crescimento pode
ser explicado pela suposição de que os judeus
receberam ativamente grandes números de convertidos,
principalmente pelas atividades descritas acima, mas também
por força de dois casos incomuns: a conversão
dos idumeus (veja Josefus, Antiguidades 13. 257-258) e dos itureus
(veja Josefus, Antiguidades 13.319).
A idéia de que os judeus buscavam convertidos ativamente
é sustentada não apenas pela demografia, mas pelos
comentários hostis de autores gregos, romanos e cristãos
acerca das tentativas dos judeus de conquistar convertidos.
Em Roma, por exemplo, Tacitus, historiador retórico,
Cícero, advogado, e Juvenal, um satírico, são
amargos e graves em denunciar atividades proselitistas judaicas.
Horácio (em Sátiras 1.4 142-143) ironiza os esforços
proselitistas judaicos. Naturalmente, o mais famoso comentário
cristão está em Mateus 23:15, onde pode ser vista
a seriedade da concorrência judaica por convertidos: “Ai
de vós, escribas e fariseus, seus hipócritas!
Vós percorreis o mar e a terra para fazer um único
prosélito; e depois de o terdes feito, o tornais duas
vezes mais filho do inferno do que vós”.
Eles tinham toda razão, do ponto de vista deles, para
estar preocupados. No início da era cristã, 10%
do Império Romano era formado por judeus, de acordo com
Salo Baron (em sua “História Social e Religiosa dos Judeus”,
volume 1, pp. 370-372). De fato é intrigante imaginar
como a história poderia ter sido diferente. Se romanos
e judeus não tivessem lutado, se os romanos não
tivessem destruído o Templo em 70 EC, esmagado a rebelião
de Bar Cochbá em 135 EC e por fim expulsado os judeus
de Jerusalém, os esforços para conquistar convertidos
teriam aumentado. É razoável ponderar que se Roma
e Jerusalém não tivessem lutado amargamente até
o fim, os romanos teriam escolhido o judaísmo, não
o cristianismo, e mudado para sempre o curso da história.
Todavia, o judaísmo ficou associado então com
a Judéia rebelde, odiada e finalmente derrotada, e Constantino
converteu-se ao cristianismo, concedendo ao Ocidente um caráter
cristão e não judaico.
A história do exílio dos judeus após a
perda do Segundo Templo ilustrou os perigos do poder perdido.
Uma parte dessa paradigmaticamente trágica história
tinha a ver com os esforços dos judeus em conquistar
convertidos.
Embora esses esforços continuassem, os judeus sem pátria
e sem poder foram restringidos pelas leis romanas — e mais tarde
cristãs e muçulmanas — relativas ao proselitismo.
Por exemplo, Domitiano ordenou que os convertidos fossem enviados
ao exílio e condenados à morte. Em 131 EC Hadriano
proibiu a circuncisão e a instrução pública
da religião judaica. Em 198/199 o Imperador Severo promulgou
leis que proibiam não-judeus de abraçar o judaísmo.
Em 335 Constantino restabeleceu a lei de Hadriano, proibindo
judeus de circuncidar seus escravos não-judeus. Há
muitos outros exemplos de tais restrições, indicando
tanto a existência de esforços ativos para conversões
ao judaísmo quanto a preocupação que esses
esforços geraram.
Porém, com o passar do tempo a atitude judaica em relação
ao convertido mudou (isso não quer dizer que a atitude
sempre foi uniformemente positiva. Há muitas referências,
tais como o famoso comentário de Rabi Helbo — Talmud,
Yevamot 47b e em outros lugares — de que “prosélitos
são tão prejudiciais para Israel quanto uma ferida”.
Houve, ao longo da história judaica, particularistas
que se opunham a receber convertidos). Gradativamente as mudanças
inverteram a atitude judaica geral de receber bem os convertidos:
aquela que já fora considerada uma obrigação
pactual tornou-se uma atividade negligenciada, ironicamente
considerada não-judaica. Os judeus tornaram-se relutantes
em buscar convertidos. Houve muitas razões para essa
transformação radical.
A primeira razão para essa mudança de atitude
em relação à aceitação dos
convertidos é, naturalmente, a perseguição
por autoridades não-judias. Tanto os convertidos quanto
a comunidade judaica eram punidos por tal atividade. A comunidade
judaica, impotente, adotou a prudente decisão de reduzir
essas atividades. Obviamente, a própria incapacidade
e o status minoritário característico dos judeus
acrescentaram razões mais sutis para a mudança
do que os elementos racionais inerentes em se tomar uma decisão
comunitária preventiva. O status minoritário produziu
profundas mudanças psicológicas que resultaram,
entre outros efeitos negativos, em uma perda de auto-estima
que arruinou o impulso de oferecer o judaísmo para o
mundo.
Finalmente, a comunidade judaica buscou uma justificativa para
explicar o seu fracasso em cumprir essa mitzvá, para
explicar sua existência obscura e para oferecer alguma
esperança de escapar de sua existência. Essa justificativa
foi encontrada na interpretação particularista
da teologia judaica, de que a missão judaica estaria
limitada simplesmente a seguir as leis religiosas e esperar
pelo Messias. A utilidade dessa visão estava óbvia
não apenas para a sobrevivência e justificativa
de mudança na missão judaica, mas por oferecer
uma esperança por um futuro judaico melhor nos tempos
messiânicos.
Os cristãos assumiram a missão judaica de aceitar
convertidos e transformaram o seu significado. Buscar convertidos
tornou-se uma atividade obrigatória, pois a salvação
não poderia acontecer fora da Igreja. Invasões,
suborno, ameaças, e finalmente violência e assassinato
foram tolerados por um cristianismo em expansão. Além
disso, os cristãos relaxaram as normas judaicas de conversão,
como a necessidade para circuncisão dos homens e a obrigação
de obedecer as leis judaicas, tornando muito mais fácil
a um pagão converter-se ao cristianismo do que ao judaísmo.
Por fim, desenvolveu-se uma inimizade entre os cristãos
triunfantes e os judeus decadentes. Por todas essas razões
os judeus passaram a desconfiar da atividade de conversão.
Seu significado original havia sido sido distorcido: os potenciais
convertidos poderiam desertar, vendo o cristianismo como uma
rota mais fácil. Assim, os judeus cada vez mais passaram
a ver os não-judeus como inimigos e não mais como
um grupo cujos membros queriam se converter ou seriam bem aceitos
mesmo que escolhessem livremente por isso (converter-se ao judaísmo).
Tornou-se mais impalatável oferecer o judaísmo
às mesmas pessoas que menosprezam, perseguiam, convertiam
à força e matavam judeus. A idéia de receber
convertidos sob tais condições tornara-se repugnante.
Do ponto de vista não-judeu, os judeus eram vistos como
culpados de deicídio (assassinos do deus-filho dos cristãos)
e como um povo disperso, fraco, digno de pena, zombaria e perseguição,
jamais de adesão.
O destino do papel da conversão dentro da lei judaica
também refletiu uma mudança significativa nos
pontos de vista judaicos. Os comentaristas da lei judaica estavam
centrados na França e na Alemanha, entre os quais estavam
pensadores como Rashi e os Tossafistas. Os Tossafistas argumentavam
que a lei judaica exige a aceitação dos convertidos.
Eles viam a busca de convertidos como uma norma para os judeus.
Além dos comentaristas, outro grupo de mestres judeus
eram os legisladores, que se concentravam em classificar a lei.
Maimônides foi o mais famoso dos legisladores. Em geral,
estes eram mais restritivos em suas atitudes em favor de aceitar
convertidos.
Para terminar com a confusão nas decisões alternadas
entre esses dois grupos de mestres em uma série de assuntos,
houve esforços para produzir um código de lei
judaica que pudesse refletir ambos os sistemas jurídicos.
No final das contas, o código que prevaleceu foi o Shulchan
Aruch de Josef Caro, suplementado por notas de Moshé
Isserles. Em parte o Shulchan Aruch tornou-se um texto de autoridade
porque foi o primeiro código produzido depois que a imprensa
foi inventada, o que fez com que fosse rápida e amplamente
distribuído pelo mundo judaico. De qualquer modo, o Código
levou a uma visão mais restritiva em sua descrição
muito breve da questão da conversão em Yoreh Deah,
capítulos 268-269. Embora Caro pareça ativamente
contrário ao proselitismo, ele apresenta as leis mais
favoravelmente do que a escola espanhola e inclui algumas opiniões
de Tossafistas, e não cita Rabi Helbo. Em um certo ponto,
Caro considera que os potenciais convertidos devem ser informados
de que todas as nações idólatras perecerão,
mas que Israel sobreviverá e o judaísmo se tornará
a única religião (Caro cita Yevamot 47a). Embora
Caro seja mais solícito do que alguns dos legisladores,
a aparente oposição à aceitação
ativa (de convertidos) contribuiu para a mudança judaica
de atitude no que diz respeito a essa aceitação
(mudança que já havia começado muito antes),
e para a derrocada da interpretação Tossafista
de tal aceitação como uma lei divina, uma mitzvá.
Essa mudança foi mais do que cosmética. Uma obrigação
divina foi tornada independente das conseqüências.
Sem esse mandamento, os judeus ficaram livres para ignorar a
aceitação de convertidos.
Esse desenvolvimento na lei judaica fundamentou a oposição
à conversão, que já havia sido construída
graças a outras razões acima mencionadas. A perseguição
e o medo conduziram, com o passar do tempo, à transformação
da compreensão judaica: da sua missão como divulgadora
da palavra de Deus para uma posição de denunciar
essa missão como não de acordo com a lei judaica.
A não-atividade missionária tornou-se a norma
enquanto os judeus sofriam o exílio da sua terra natal
e aguardavam pelo Messias. O povo judeu recusava-se a entregar
a sua mensagem a outros lares que não os seus.
O judaísmo contemporâneo herdou essa compreensão
transformada da missão judaica. Porém, há
uma série de razões históricas do porquê
a idéia original de buscar convertidos pode voltar a
ser aceita novamente.
A perda da soberania nacional, com sua fraqueza concomitante
e perda de autoconfiança, além da percepção
por outros de que os judeus haviam sido vencidos pela história,
eram razões centrais para a transformação
da compreensão judaica da sua obrigação
pactual. Porém, agora Israel voltou à história.
A soberania nacional está restabelecida.
Por muitos séculos um trabalho missionário judaico
poderia ser considerado perigoso às vidas judias; esse
não é mais o caso.
Houve um tempo em que os religiosos judeus pareciam claramente
invencíveis; hoje em dia, a competição
pela alma humana está aberta, com visões não-religiosas
participando ativamente da disputa. Ao mesmo tempo, raramente
houve momentos em que uma visão judaica de mundo foi
tão amplamente necessária. Há um desejo
genuíno de aprender sobre judaísmo. Há
atualmente cerca de 200 mil (7) convertidos ao judaísmo
nos Estados Unidos. Milhares das pessoas se tornam judias todos
os anos, em boa parte graças a uma relação
afetiva com um parceiro judeu. Sem dúvida muito mais
gente seria atraída ao judaísmo se conhecessem
as convicções e disponibilidade do judaísmo.
Enquanto muitos intérpretes da lei judaica entendiam
que o trabalho missionário deveria ser restrito, hoje
pode se levantar o debate se a lei permite aos judeus voltar
e retomar a obrigação pactual original.
Apesar do fato de que as condições favorecem o
reavivamento do trabalho missionário judaico, os judeus
americanos parecem ser candidatos improváveis para conduzir
tal processo. Isso devido a uma série de razões,
como as diversas noções discrepantes do que é
judaísmo ou uma percepção de que oferecer
o judaísmo é uma invasão à privacidade
de terceiros.
Certamente é verdade que o judaísmo é,
por assim dizer, sujeito a várias interpretações.
Além disso, há convicções centrais
e singulares que a maioria dos judeus pode aceitar. Elas incluem:
(1) Enfatizar ações em vez da aceitação
de uma ideologia particular; (2) a visão de que o pecado
não é inerente, mas que os indivíduos têm
liberdade moral para escolher entre o certo e o errado; (3)
valores básicos, como a centralidade da família,
a visão de que o aprendizado é uma forma de serviço
religioso, e que o centro da atividade religiosa é fazer
boas ações; (4) identificação com
a história judaica e com o povo judeu; e, obviamente,
(5) a Unicidade de Deus em contraposição, por
exemplo, ao trinitarianismo ou qualquer outra interpretação
do monoteísmo.
A preocupação justificável em não
invadir o espaço alheio ajudará a manter condutas
aceitáveis (como oferecer aulas, livros e outros materiais,
apresentações de mídia, o uso de anúncios,
salas de leitura, e assim por diante) e a não adotar
práticas discutíveis ou inaceitáveis (como
ir de porta em porta na busca de candidatos potenciais à
conversão, parar as pessoas nos aeroportos, na rua ou
em outros lugares públicos, e assim por diante).
A escolha de reintroduzir uma conduta pró-ativa em favor
de novas conversões ao judaísmo precisa ser colocada
ao lado de todas as escolhas acessíveis aos judeus. Os
judeus podem continuar como têm feito e transformar a
definição de ser judeu de uma definição
espiritual para uma focada na participação comunitária
ou em associações emocionais por meio do humor
judaico, culinária, judeus famosos, ou um sentimento
mais generalizado de simplesmente ser judeu. Contudo, é
justamente essa transformação que tem conduzido
ao avanço da assimilação. Os judeus podem
se assimilar passiva ou ativamente, como muitos estão
fazendo, mas uma grande parte permanece determinada a manter
a sua identidade judaica. Esses podem se mudar para Israel,
mas a maioria não deseja isso. Esses podem se auto-segregar,
mas a maioria dos judeus americanos gosta e deseja continuar
a participar da vida norte-americana. Eles podem tentar praticar
o judaísmo tradicional e seguir aqueles judeus que se
assimilam, mas tais esforços inevitavelmente encolherão
a comunidade judaica americana até que os judeus se tornam
os Amishes do século 21.
Há ainda uma outra escolha. O judaísmo americano
pode manter uma conexão com as tradições
e ao mesmo tempo oferecer o judaísmo, tanto para judeus
afastados quanto para não-judeus. Esses esforços
para ensinar outros, coerentes com as obrigações
judaicas pactuadas no Sinai, evidentes na história judaica,
são cada vez mais necessários em nossa época
e podem revitalizar o judaísmo americano.
Os judeus americanos são ambivalentes a respeito de suas
próprias vidas espirituais. Um grupo pragmático,
gerado por antepassados que transbordam de uma convicção
socialista e um desejo de se livrarem da religião que
herdaram, os judeus americanos estão em geral numa posição
incômoda no que tange à questão espiritual.
Porém, o ato de oferecer até mesmo um judaísmo
sustentado com essa ambivalência forçará
os judeus americanos às atitudes intelectualmente válidas
de confrontar e definir suas identidades religiosas. Os professores
aprenderão tanto quanto os estudantes.
Isso não quer dizer que não há perigos
nesse esforço de receber bem os convertidos. Há
a possibilidade, que deve ser enfrentada, de que a aceitação
de convertidos venha a exacerbar divisões dentro do judaísmo
entre aqueles que vivem e os que não vivem pela Halachá.
A realidade é que a maioria dos convertidos não
se converte de acordo com os padrões haláchicos
necessários para serem considerados judeus por muitos
dentro da comunidade ortodoxa. Todavia, como todos os judeus
reconhecem a possibilidade de conversão legítima
ao judaísmo, o tema envolve quem está fazendo
a conversão e suas exigências em vez do próprio
ato existencial de se converter. Assim sendo, e como os argumentos
são internos à comunidade e independentes das
visões de qualquer força externa, resta a esperança
de que, em termos haláchicos legítimos, sejam
encontrados alguns meios para superar essas divisões.
Ver a aceitação como algo coerente com a tradição
judaica é um começo útil para uma busca
honesta em direção a uma solução
para esse problema. No entanto, é importante notar que
se receber bem os convertidos é uma obrigação
judaica, e o fato de que isso traz dificuldades não é
razão suficiente para deixar de recebê-los bem.
Esses esforços obrigatórios, embutidos no pensamento
judaico e praticados na história judaica, precisam ser
revividos não apenas porque são obrigatórios,
mas também porque são práticos. Em vez
das chamas do judaísmo americano se apagarem, é
possível reacendê-las e fazê-las brilhar,
de modo que o povo judeu retome o seu legítimo papel
histórico como uma luz entre as nações.
Notas do tradutor
(1) Entre esses missionários cristãos e suas táticas
para converter judeus ao cristianismo estão incluídos
claramente os missionários cristãos que se passam
por “judeus messiânicos”, “Jews for Jesus”, “judeus nazarenos”
e correlatos. (NT)
(2) Mekhilta (ou Mechilta) sobre Êxodo: texto talmúdico
que amplia e interpreta o que está contido no Livro do
Êxodo. (NT)
(3) Sem temerem pela sua salvação: ou seja, sem
ter medo que, ao deixar a sua religião original e se
converter ao judaísmo, não seriam salvas ou estariam
condenadas a algum tipo de inferno após a morte. (NT)
(4) Sifre de Deuteronômio: texto talmúdico que
amplia e interpreta o que está contido no Livro de Deuteronômio.
(NT)
(5) Gênesis Rabá: texto talmúdico que amplia
e interpreta o que está contido no Livro de Gênesis.
(NT)
(6) Literatura agádica: baseada na Agadá (plural:
agadót), histórias contadas pelos sábios
do Talmud para explicar certos conceitos ou situações.
(NT)
(7) Nos EUA, dada a média de 10 mil convertidos ao ano,
hoje (2005) estima-se que há 300 mil judeus americanos
por opção. (NT)
(7) “Eu Sou o Eterno que em integridade Te escolheu; tua mão
hei de fortalecer e sempre Te protegerei; Te transformarei em
um convênio para todos os povos e em uma luz para as nações;
7 para iluminar os cegos, libertar os prisioneiros, retirar
de seu cárcere os que habitam na escuridão” (Isaías
42:6-7). (NT)
Créditos:
Texto adaptado do site em inglês www.convert.org
com a permissão de Barbara Shair
Tradução: Uri Lam
Edição: Adriana Lacerda
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